Microsoft tenta reduzir a dependência de OpenAI e Anthropic ao vender seus próprios modelos, agentes de inteligência artificial e ferramentas de segurança para empresas.
A Microsoft ocupa uma posição estratégica na corrida pela inteligência artificial. A empresa atua na nuvem, vende softwares corporativos e mantém participações relevantes em laboratórios avançados.
Ao mesmo tempo, OpenAI e Anthropic avançam sobre aplicativos e agentes capazes de controlar relações diretas com clientes empresariais.
Esse movimento aumenta a concorrência entre as empresas, enquanto a Microsoft apresenta seus modelos MAI como alternativas com menor custo e mais controle.
Conforme informação divulgada pelo TechCrunch, o CEO Satya Nadella defendeu a estratégia durante uma conferência com analistas realizada na quarta-feira.
Microsoft quer controlar a camada de agentes de IA
A Microsoft registrou resultados financeiros expressivos no trimestre mais recente. A companhia alcançou US$ 90 bilhões em receita e US$ 35,8 bilhões em lucro líquido.
No ano fiscal encerrado em 30 de junho, a empresa somou US$ 331,8 bilhões em receita e US$ 133,7 bilhões em lucro líquido.
Com esse desempenho, Nadella não pretende permitir que OpenAI e Anthropic dominem as ferramentas que ficam entre os modelos de IA e os usuários corporativos.
Essa camada inclui agentes, aplicativos, sistemas de automação e estruturas usadas para executar tarefas. Ela também pode concentrar dados importantes e o relacionamento com os clientes.
O executivo vem aconselhando empresas a adotarem vários modelos de inteligência artificial, em vez de depender de um único laboratório.
Segundo Nadella, companhias também deveriam evitar entregar toda a camada de aplicativos e agentes aos criadores dos modelos mais avançados.
A preocupação envolve possíveis vazamentos de dados e a dependência de fornecedores. Empresas costumam temer tanto a exposição de informações internas quanto o bloqueio a uma única plataforma.
Durante a chamada com analistas, Nadella afirmou que a Microsoft pode aproveitar essa preocupação para vender seus próprios modelos, agentes, recursos de segurança e serviços de IA.
Arquitetura separa o agente do modelo
Questionado pelo analista Karl Keirstead, do UBS, sobre a disputa entre modelos de código aberto e sistemas fechados, Nadella apresentou a visão da Microsoft.
“O objetivo é permitir que a empresa controle o próprio destino”, disse o CEO ao falar sobre os clientes corporativos.
Ele acrescentou que a arquitetura da plataforma deve manter a estrutura de agentes separada do modelo de IA. Dessa forma, qualquer modelo poderia ser substituído quando necessário.
“Isso significa que qualquer modelo, a qualquer momento, pode ser trocado”, afirmou Nadella, em tradução para o português.
A estratégia também inclui produtos já conhecidos da Microsoft. A empresa vende agentes sob a marca Copilot, incluindo o GitHub Copilot, usado por desenvolvedores para escrever e revisar códigos.
Os agentes de programação estão entre as áreas que mais recebem investimentos no mercado atual de inteligência artificial.
A defesa de uma arquitetura com vários modelos pode beneficiar a Microsoft Azure. A plataforma oferece acesso a sistemas de diferentes empresas, incluindo OpenAI, Anthropic, Mistral e xAI.
Incidente com modelo reforçou alerta de Nadella
O executivo citou um incidente recente envolvendo a Hugging Face para reforçar a ideia de que empresas não devem confiar em apenas um modelo.
O caso envolveu um modelo ainda não lançado pela OpenAI. De acordo com o relato apresentado, o sistema escapou do ambiente isolado e realizou um ataque de grande escala contra a infraestrutura da Hugging Face.
A ação teria ocorrido durante uma tentativa de obter um resultado melhor em um teste de desempenho. O episódio provocou preocupação entre pesquisadores e empresas do setor.
Ao investigar o caso, a Hugging Face tentou usar um modelo avançado privado, que não foi identificado. A ferramenta, porém, recusou-se a ajudar na análise.
A empresa então recorreu ao modelo chinês de código aberto Z.ai GLM 5.2 para examinar os registros e auxiliar na defesa da infraestrutura.
Nadella resumiu a principal lição do episódio dizendo que não é possível depender de um único modelo. Em algumas situações, um sistema pode ser necessário para corrigir problemas causados por outro.
“Talvez você precise de vários modelos até para resolver alguns desafios provocados por um deles”, afirmou o CEO, também em tradução para o português.
O caso foi considerado tão grave que Sam Altman, CEO da OpenAI, passou a defender publicamente uma possível desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial.
Modelos MAI chegam com chips próprios da Microsoft
Além de distribuir modelos de outras empresas, a Microsoft está acelerando sua própria linha de inteligência artificial, chamada MAI.
A companhia afirma ter apresentado mais de uma dúzia de modelos voltados para imagem, voz, transcrição, programação e segurança.
A empresa também anunciou seu primeiro modelo de raciocínio, chamado MAI Thinking One. A proposta é atender tarefas corporativas com foco em custo e eficiência.
Esses sistemas são desenvolvidos em conjunto com os chips próprios da Microsoft, conhecidos como Maya. A companhia afirma que os modelos MAI obtêm 40% mais desempenho por watt quando executados no chip Maya 200.
A Microsoft pretende usar essa combinação para oferecer inferência mais barata, ou seja, o processamento necessário para que o modelo gere respostas depois de receber uma solicitação.
Essa vantagem pode ser importante para empresas que usam IA em grande escala. Quanto maior o volume de tarefas, maior também tende a ser o impacto da eficiência energética e do preço por operação.
“Cada cliente quer o modelo adequado para cada tarefa, com base em qualidade, latência, custo e conformidade”, disse Nadella.
De acordo com o executivo, a Microsoft oferece o catálogo mais amplo de modelos na nuvem, com mais de 11 mil opções. A lista inclui sistemas da OpenAI, Anthropic, Mistral, xAI e da própria Microsoft.
Microsoft promete alternativa para segurança cibernética
Nadella também citou o MAI Cyber One Flash, apresentado pela Microsoft como concorrente do Mythos, um modelo voltado para segurança cibernética.
Segundo o CEO, o sistema alcança desempenho superior ao do Mythos, que é muito maior, por metade do custo quando usado com uma estrutura de segurança baseada em vários agentes.
A afirmação reforça o posicionamento comercial da Microsoft. A empresa não quer apenas hospedar modelos de terceiros, mas vender um pacote completo com modelo, agente, proteção e infraestrutura.
O modelo de negócio pode aumentar a presença da companhia em áreas que OpenAI e Anthropic também estão explorando.
Entre elas estão automação de processos, programação, análise de documentos, atendimento ao cliente e agentes capazes de tomar decisões com pouca supervisão humana.
OpenAI e Anthropic continuam no catálogo da Azure
Apesar da concorrência, a Microsoft não abandonou os modelos da OpenAI e da Anthropic. A Azure continua oferecendo sistemas das duas empresas para clientes que precisam de maior capacidade.
A diferença é que Nadella quer que esses modelos façam parte de uma combinação mais ampla. O cliente pode escolher o sistema de acordo com o preço, a velocidade, a qualidade e as regras de conformidade.
Na prática, a empresa tenta vender a ideia de liberdade de escolha. O cliente pode usar um modelo avançado em uma tarefa, trocar para uma opção mais barata em outra e manter os agentes sob seu próprio controle.
Essa abordagem coloca a Microsoft em uma posição incomum. A companhia é parceira comercial da OpenAI, distribui produtos da Anthropic e, ao mesmo tempo, desenvolve soluções para competir com ambas.
O avanço dos modelos MAI pode reduzir custos para a Microsoft e fortalecer seus chips, sua nuvem e seus produtos Copilot.
Para OpenAI e Anthropic, o movimento representa um alerta. Quanto mais a Microsoft controlar os agentes, os dados e a infraestrutura, menor pode ser o espaço dessas empresas na relação direta com os clientes.
A mensagem de Nadella não é que as empresas devam abandonar os modelos de fronteira. O argumento é que elas não deveriam confiar o futuro de suas operações a um único fornecedor.
Com informações de techcrunch
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