Data centers de IA ameaçam a rede elétrica dos EUA após falha

Uma falha em uma linha de transmissão provocou a desconexão quase simultânea de data centers e fez a tensão elétrica […]

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Uma falha em uma linha de transmissão provocou a desconexão quase simultânea de data centers e fez a tensão elétrica subir em uma parte extensa dos Estados Unidos.

Uma linha de transmissão caiu nos arredores de Washington, nos Estados Unidos, e revelou um problema crescente causado pela expansão dos data centers de inteligência artificial.

Em condições normais, a rede elétrica se recuperaria em poucos segundos. Desta vez, porém, foram necessários mais de 10 minutos para estabilizar o sistema.

O episódio não provocou um apagão, mas fez luzes piscarem em várias regiões. Os dados foram divulgados pelo TechCrunch, com base em informações da PJM e da Ting Labs.

Mais de 3 GW de carga desapareceram em segundos

A queda da linha fez instalações na Virgínia do Norte migrarem para sistemas de energia reserva. Com isso, cerca de 3,1 gigawatts de consumo desapareceram em aproximadamente 30 segundos.

A situação se agravou pouco depois, quando outros data centers também deixaram de consumir eletricidade da rede. No pico do evento, a PJM registrou um excedente de 3,49 gigawatts.

A rede levou mais 11 minutos para voltar a uma condição estável. A carga desconectada equivalia a cerca de 3% da demanda total da PJM naquele momento, conforme dados citados pela Reuters.

A PJM administra o sistema elétrico de uma área que vai de Nova Jersey a Illinois. A organização atende aproximadamente 67 milhões de consumidores, sendo a maior operadora de rede dos Estados Unidos.

A Virgínia do Norte, que faz parte da área da PJM, concentra a maior quantidade de data centers do mundo. A região se tornou um dos principais polos para serviços em nuvem, processamento de dados e treinamento de modelos de IA.

Por que a desconexão em massa é perigosa

Uma rede elétrica precisa manter oferta e demanda quase perfeitamente equilibradas. Quando grandes consumidores deixam o sistema de forma repentina, a tensão pode subir ou cair além dos limites seguros.

Pequenas variações são suportadas pela rede e pelos equipamentos conectados a ela. Oscilações maiores, porém, podem acionar mecanismos de proteção e desligar instalações inteiras.

Foi esse efeito em cadeia que marcou o incidente. Cada data center detectou a alteração de tensão e acionou seus dispositivos de segurança em poucos segundos.

Como várias instalações estavam próximas e reagiram quase juntas, a retirada de carga aumentou o desequilíbrio inicial. A oferta de eletricidade ficou momentaneamente maior que o consumo.

O resultado foi uma elevação da tensão em uma área que se estendeu da Virgínia do Norte até Chicago, segundo dados coletados pela Ting Labs, empresa que monitora redes elétricas por meio de sensores instalados em tomadas residenciais.

Ricardo de Azevedo, diretor de tecnologia da ON.Energy, classificou o episódio como um “canário na mina de carvão”. Segundo ele, eventos envolvendo cargas muito grandes estão acontecendo com frequência cada vez maior.

Ali Zain Banatwala, especialista sênior em modelos de mercado da IESO, afirmou ao TechCrunch que os operadores precisam encontrar uma forma de fazer as instalações se desconectarem ou reconectarem em sequência.

Essa coordenação reduziria o impacto de uma falha e permitiria que os responsáveis pela rede preparassem procedimentos mais confiáveis para emergências.

Baterias podem ajudar data centers a permanecer conectados

Uma alternativa é construir data centers capazes de absorver oscilações sem abandonar imediatamente a rede elétrica. Essa estratégia combina baterias, conversores de energia e sistemas de controle rápidos.

A ON.Energy desenvolveu um sistema de fornecimento ininterrupto que atende todo o campus de um data center, incluindo servidores, sistemas de refrigeração e outros equipamentos essenciais.

Na prática, o conjunto de baterias funciona como uma camada entre a rede e a instalação. Para o sistema elétrico, o data center passa a parecer uma carga mais constante e previsível.

O sistema também pode ajustar o consumo de processamento. Em atividades como o treinamento de modelos de IA, cargas computacionais podem ser aumentadas ou reduzidas conforme as condições da rede.

Quando há energia excedente, as baterias podem ser carregadas. Se o fornecimento cair, elas liberam eletricidade para os servidores, evitando que a instalação precise se desligar de maneira brusca.

De acordo com Azevedo, os equipamentos conseguem acompanhar mudanças na rede em milissegundos. Essa resposta rápida pode impedir oscilações de tensão e reduzir o risco de novos efeitos em cascata.

A empresa afirma estar instalando sistemas com capacidade total de 3 gigawatts em quatro campi de data centers. A tecnologia ainda precisa ser adotada em escala para produzir impacto amplo no sistema elétrico.

O crescimento da IA aumenta a pressão sobre a rede

O problema tende a crescer porque os data centers estão consumindo mais energia para executar serviços de nuvem e treinar sistemas de inteligência artificial.

Um evento semelhante ocorreu dois anos atrás, também na rede da PJM. Na ocasião, 60 data centers se desconectaram ao mesmo tempo e retiraram 1,5 gigawatt de carga.

O episódio mais recente foi duas vezes maior. Naquele período, os data centers representavam cerca de 6% da carga da PJM, segundo a Synapse Energy Economics.

A estimativa é que esse percentual chegue a 24% até 2040. Se as instalações continuarem reagindo de forma independente e simultânea, uma falha relativamente pequena poderá provocar consequências mais graves.

O operador ERCOT, responsável pelo sistema elétrico do Texas, já planeja exigir que grandes consumidores, incluindo data centers, permaneçam conectados durante determinadas perturbações.

Essa exigência é conhecida como capacidade de ride through, ou permanência durante uma instabilidade. Em vez de se desligar imediatamente, a instalação deve suportar a oscilação e ajudar a rede a se recuperar.

Também será necessário melhorar a comunicação entre operadores e empresas de tecnologia. Com dados em tempo real, os centros de processamento poderão reduzir ou reorganizar cargas antes que os dispositivos de proteção sejam acionados.

Regras e planejamento precisam acompanhar a expansão

A expansão dos data centers de IA exige mais do que novas linhas de transmissão e usinas. A forma como essas instalações se conectam e respondem a falhas também precisa ser planejada.

Operadores podem estabelecer limites para desconexões simultâneas, exigir controles coordenados e determinar quanto tempo uma instalação deve permanecer ligada em diferentes tipos de ocorrência.

Outra medida é incentivar baterias e sistemas de conversão capazes de suavizar a demanda. Essas tecnologias podem transformar grandes consumidores em participantes ativos da estabilidade elétrica.

Sem mudanças, a rede ficará mais vulnerável à combinação de cargas concentradas, equipamentos que respondem em frações de segundo e uma demanda crescente por computação.

O incidente na região de Washington não causou um apagão, mas serviu como alerta. Para sustentar o avanço da inteligência artificial, os data centers terão de deixar de ser consumidores passivos e passar a colaborar com a rede.

Com informações de techcrunch

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